Os Militares

Jorge de Arruda Proença


Nasceu a 14 de junho de 1901, na cidade de Tietê, Estado de São Paulo. Filho de Tarcilo Cyríaco de Arruda e de Izabel de Proença Arruda.


Em Tietê, viveu desde os 4 anos de idade, depois do falecimento de seus pais, em casa de sua avó Maria Alves de Proença e de sua tia Maria de Almeida Falcão, que, com desvelo maternal, o criou junto a seus filhos Paulo e Maria Inocêncio Falcão.


Cursou até o 3.° ano no Grupo Escolar de Tietê e se lembra com carinho de seu diretor, Prof. Madeira.


Alistou-se na Escola de Aprendizes de Marinheiros em setembro de 1917 e desta, foi transferido para a Escola de Grumetes, em dezembro de 1918.


Sentou praça no Corpo de Marinheiros nacional em dezembro de 1919 como marinheiro de l.a classe, visto ter sido classificado com a nota “Distinção”, na Escola de Grumetes. Em março de 1920, matriculou-se na Escola de Especialistas — curso de Artilharia — logrando a nota Distinção que lhe valeu a promoção a Cabo-de-Esquadra, em dezembro de 1920. Serviu a bordo do navio-escola "Benjamin Constant", do cruzador "Rio Grande do Sul" e no encouraçado "São Paulo", neste como chefe de torre de 305mm. Em 1923, matriculou-se no Curso de Pilotos Navais, sendo aprovado na parte teórica com Distinção, não chegando a terminar a parte prática de pilotagem, por se ter envolvido nos acontecimentos políticos da época que o afastaram do serviço ativo da Marinha, até 1930. Neste interregno esteve preso na Fortaleza Santa Cruz, em Niterói, Rio de Janeiro, de onde juntamente com outros marinheiros foi deportado para Clevelândia do Norte, Pará, de onde fugiu, vindo radicar-se em Curitiba, contraindo núpcias com D. Lydia Josephina Scaravella, de cujo casamento nasceram dois filhos: Maria Izabel e Jorge.


Em 1931, beneficiado pela lei de Anistia aos Militares envolvidos nos levantes de 1924 e 1930, reverteu ao serviço ativo como suboficial, tendo terminado então a parte prática de pilotagem e recebido o breve de piloto aviador naval, em 1932. Promovido a 2.° tenente aviador, em setembro de 1933, passou a exercer suas funções como assistente técnico das Oficinas de Aviação Naval, no Galeão. Cursou a Escola de Engenharia da Universidade do Brasil, sendo diplomado engenheiro civil em 1939.


Em 1934 foi designado para servir na Base Aérea de Florianópolis, onde exerceu funções de encarregado do pessoal, imediato e comandante interino. Desempenhou diversas comissões de representação, dentre outras, a da visita de uma esquadrilha de aviões navais a Buenos Aires. Promovido a 1.° tenente em 1935.


Em 1938, matriculou-se na Escola Técnica do Exército, sendo 3 anos mais tarde diplomado Engenheiro Militar Aeronáutico. O militar da Aeronáutica. Em janeiro de 1941, com a criação do Ministério da Aeronáutica, foi para este transferido no posto de Capitão Engenheiro-Aviador, passando a servir como diretor-técnico no Parque de Aeronáutica dos Afonsos, no Rio. Em 1945 foi promovido a Major Engenheiro-Aviador.


Em março de 1947, foi designado para instalar o Parque de Aeronáutica de Belém, em cujo comando permaneceu até março de 1949, quando passou a comandar a Base Aérea, até fins de 1950, quando regressou ao Rio para servir no Estado Maior da Aeronáutica como chefe de divisão. Promovido a tenente-coronel em setembro de 1951, assumiu as funções de Chefe da Divisão de Operações da Aeronáutica Civil.


Em 1954 foi designado para servir no Estado Maior das Forças Armadas como assistente-técnico. Em outubro de 1954 foi promovido a coronel, sendo a seguir promovido a Brigadeiro-do-Ar, e transferido para a Reserva Remunerada no posto de major-brigadeiro.


Possui as seguintes condecorações: Ordem do Mérito Aeronáutico, Medalha de Ouro de 30 anos de serviço, Cruz de Guerra e Medalha do Atlântico Sul.


Tem mais de 10.000 horas de vôo e foi um dos pioneiros do Correio Aéreo Naval, onde percorreu o Brasil inteiro em missões de socorro e transportando correspondência para lugares inacessíveis a qualquer outro meio de transporte.


Chefiou a expedição de socorro às vítimas do avião Presidente, sinistrado nas selvas de Mato Grosso, onde construiu cerca de 70 km de picadas para atingir o local do acidente. Exerceu sempre funções de grande relevo na Aeronáutica, onde deixou um círculo muito grande de amigos que até hoje ainda o distinguem com sua amizade.


Após a passagem para a reserva, depois de 38 anos de serviços prestados à Pátria, exerceu a função de Engenheiro Civil e Aeronáutico em São Paulo e em Curitiba.


Faleceu a 03 de março de 1987, com a alma tranqüila, pelo dever cumprido como homem, soldado e chefe de família.


Amou sua terra natal, Tietê, como poucos, divulgando sempre para os que com ele conviveram profissional e socialmente, sua história e suas belezas, que nem mesmo uma infância pobre conseguiu atenuar e onde foi um dos homenageados na 14ª Semana Cornélio Pires.


Tietê era o nome de seu avião, era a presença em seus momentos felizes, era a brincadeira simplória com que honrava a terra onde nasceu.


Tenente Gelás


Em 1º de agosto de 1914 a Alemanha declarou guerra à Rússia; a 03 de agosto a Alemanha à França; a 04 a Grã-Bretanha à Alemanha e, a 06 de agosto a Áustria à Rússia, estando assim iniciada a Primeira Guerra Mundial.

As repercussões do conflito refletiam em todo o mundo, e aquém do Oceano Atlântico, em nosso Brasil.

De São Paulo partem milhares de voluntários e reservistas dos exércitos ingleses e franceses. O brio nacional havia sido ferido.

Um jovem tieteense se encontrava em Paris, em estudos de aperfeiçoamento. Acaba de se formar. Recém saído da Escola de Farmácia e Odontologia colara grau em 16 de novembro de 1911.

Seu pai Pedro Francisco Gelas, francês de origem, trabalhava em Tietê como administrador da “Fazenda da Baronesa”, de propriedade de dona Paulina de Souza Queirós, onde o menino nascera em 24 de abril de 1890.

Alguns anos mais tarde, seus pais deixaram a fazenda e retornaram para São Paulo, onde ele fez o curso primário e, em seguida, cursara a Escola de Farmácia, entre os anos de 1909 e 1911.

Declarada a guerra, o jovem Gustavo Gelas, como bom filho de gaulês, apresentou-se como voluntário e por ser estrangeiro foi engajado no célebre regimento da “Legião dos Estrangeiros”.

Acompanhemos a vida de nosso herói no transcorrer da tragédia da guerra em que se empenhara através dos comunicados oficiais do Exército Francês.

Tomara parte na luta em várias frentes onde a Legião Estrangeira era designada e como simples soldado de 2ª classe já merecia a “Cruz de Guerra” como rezam os assentamentos militares.

Eis a primeira citação:

“Ordem do dia do Regimento nº 275 de 24 de outubro de 1916. Excelente soldado, muito enérgico, provou durante um ataque de surpresa no qual voluntariamente tomou parte revelando as mais belas qualidades, de coragem e sangue frio”.

Novamente na “Ordem do Dia do 17º Corpo de Exército nº 6 de 13 de junho de 1917. Granadeiro de escol. No dia 17 de abril de 1917 conquistou sucessivamente vários trechos de trincheiras onde o inimigo, fortemente estabelecido resistia tenazmente”.

Como cabo, Gelás alcançou a seguinte citação: “Ordem do dia do 2º Exército nº 888, de 1º de setembro de 1917, dirigiu o combate com admirável coragem e, só, conquistou um trecho de trincheira obrigando dez alemães a renderem-se. Ferido por três estilhaços de obus recusou formalmente a retira-se do campo de luta”.

Como sargento obteve medalha militar com a seguinte citação:

“Ordem nº 11.432. “D” – De 11 de novembro de 1918, do grande Quartel General. Inferior de escol. Bravo até a temeridade distinguiu-se em todas as batalhas em que tomou parte pela sua coragem e suas façanhas. Em 26 de abril de 1918, foi ferido gravemente, quando conduzia com seu ardor habitual sua seção para assalto das linhas. Dois ferimentos anteriores, três citações”.

Como Segundo Tenente, em outubro de 1918, recebeu a cruz da Legião da Honra, conquistada no campo de batalha com a ordem seguinte:

“Ordem nº 1.507. “D”. De 10 de outubro de 1918, do grande Quartel General. Oficial de excepcional bravura conduziu brilhantemente seu pelotão na batalha de 02 de setembro de 1918, destruindo numerosas metralhadoras, fazendo saltar um importante depósito de munições e contribuiu para rechaçar numerosos contra-ataques. Em pleno combate, tomando o comando de vagas de assaltos de um batalhão privado de seus chefes, reorganizou-o sob um violento fogo, mantendo-os nas posições conquistadas. Causou ao inimigo, pelo emprego judicioso de suas peças, elevadas perdas e contribui para a progressão das unidades avançadas. Três ferimentos, quatro citações”.

De simples soldado, pela valentia foi promovido a cabo, sargento e segundo-tenente.

Em começos de setembro de 1918 “O Estado” publica um telegrama do exterior que diz:

“Paris, 21 – (E) O tenente Gustavo Gelás natural do Estado de São Paulo, recebeu hoje no campo de batalha, a condecoração da Legião de Honra”.

A notícia desperta a atividade da reportagem do grande órgão, que no dia 22 de setembro de 1918, publica novas informações:

“Gustavo Gelás e não Galésio, como saiu a tempo publicado, em cujo peito o Governo acaba de colocar a medalha da Legião de Honra, justo prêmio de seus valiosos feitos na guerra, é um rapaz natural deste estado, nascido na cidade de Tietê e diplomado em Odontologia pela Escola de Farmácia de São Paulo.

Ao rebentar a guerra, Gelás que já se achava na França, onde prosseguia os seus estudos alistou-se incontinente na Legião Estrangeira participando desde então dos mais sangrentos combates que até agora se travaram contra o invasor do território francês e dos quais inúmeras vezes saiu ferido.

Dotado de magnífico físico, ardoroso e audaz, distinguiu-se desde logo de seus companheiros de armas, chamando para si a atenção de seus superiores, que nunca mais perderam de vista aquele belo rapaz de cabeleira ruiva, nascido em longes terras, que afrontava impavidamente a morte pela França, com um heroísmo que tinha algum de tanto selvagem.

A entrada do Brasil na guerra veio ainda mais aumentar o ardor combativo do moço paulista, que numa ascensão rápida, através de mil perigos, chegou a obter o posto de Tenente, após ter sido citado em ordem do dia por atos de bravura, os quais são narrados em entusiástico artigo pela “Ilustration” de 19 de janeiro de 1918.

Por ele se vê quão justa e merecida é a recompensa que acaba de receber o jovem patrício, cujo patriotismo raciocinado e devotamento à causa comum mais uma vez ele evidencia, numa carta que nos enviou e que, extraordinária coincidência, chega às nossas mãos, precisamente quando o telégrafo nos anuncia sua condecoração.

Eis os termos da missiva:

Front, 14de agosto de 1918.

Amigos do Estado.

Notícias vindas da Pátria longínqua e querida informam-me que o meu nome obscuro tem sido festejado como o de um herói.

Engajado como voluntário nas fileiras gloriosas do Exército francês procurei nos campos de batalha da velha Europa enaltecer o nome de nossa grande Pátria: - o nosso Brasil amado.

Conquistei os meus galões de tenente sob a metralha e entre os mortos, vítimas gloriosas da causa sacrossanta da Civilização e do Direito.

Batendo-me pela França bato-me pelo Brasil, pois todos nós sabemos que os destinos da Pátria idolatrada se decidem nos campos de batalha da França. Creio mesmo que todo o brasileiro digno deve empunhar na hora grave do presente a carabina e a espada contra as hordas vandálicas dos assassinos e incendiários que sob a capa imunda da “Kurtur”, procuram obstruir os progressos da civilização e aniquilar as altas concepções do Direito, da Justiça e da Liberdade.

Longe de ambicionar os galões, engajei-me sob as cores imortais do grande estandarte latino, porque julguei que o gesto da Alemanha era um insulto sórdido à nossa raça.

Povo detestado pelo universo culto e civilizado, raça infame, cujos crimes de um número vultadíssimo, ele merece dos exércitos aliados, um castigo dos mais severos. E esse castigo ele o terá porque, hoje como ontem, a nossa vontade de vencer é grande. Dando o meu sangue a França, cumpro com o meu dever de homem e de brasileiro que sou, satisfeito de ver que a minha cidade natal, Tietê, não tem motivos para se envergonhar de um filho humilde que, nos campos de batalha do velho mundo, tem vertido seu sangue pela causa comum.

Sempre que me foi possível procurei subtrair-me à popularidade, sendo que o artigo publicado pela “Ilustration” em 19 de janeiro último, foi com a minha formal oposição.

Não me chamo Gelásio nem Galésio, mas Gustavo Gelás, sou diplomado pela Escola de Farmácia de São Paulo e filho do venerando ancião, Pedro Gelás, professor de agricultura do Instituto Disciplinar dessa capital.

Embora sendo filho de pais franceses optei pela nacionalidade brasileira, e é como brasileiro que me bato nas fileiras do exército francês contra os hunos”.

Terminada a Guerra Européia, com a assinatura do armistício de 11 de novembro de 1918, as tropas francesas foram distribuídas na ocupação do território da Alemanha, sob o comando do Generalíssimo Foch.

Em 1920, o Tenente Gelás recolhia-se a Marrocos, agitado pela revolta do RIF, juntamente com o seu Regimento cuja sede oficial era naquele protetorado.

“O Tietê”, edição de 04 de junho de 1922 publicou a seguinte notícia: “Em Marrocos, em virtude de grave ferimento que recebera na perna esquerda, faleceu o nosso distinto conterrâneo Tenente Gelás, cuja morte causou aqui grande consternação”.

“O Tenente Gelás foi ferido no dia 14 de abril de 1922, no combate de Bab Hoceine – Issoual, quando, sob o fogo do inimigo, à queima roupa, dispunha em ordem de combate a seção de morteiros que comandava. Foi transportado em liteira para Ain Defali, depois em aeroplano no dia 16 para o hospital de Meknés.

O seu primeiro ferimento era grave: fratura em dois pontos, a tíbia e o perônio da perna esquerda. Durante a viagem a perna gangrenou. Foi mister recorrer à amputação. A operação pouco adiantou, a febre persistiu, sinal de uma infecção geral.

Na manhã do dia 15 de maio, o Tenente Gelás teve uma pequena hemorragia, imediatamente estancada, mas que, dado seu estado de extrema fraqueza, ocasionou sua morte aproximadamente às 10 horas e meia. Conservou-se perfeitamente lúcido até os últimos instantes de vida, fumando cigarros até as 9 horas e meia. Morreu sem sofrer, sem sentir.

Os seus funerais foram celebrados no dia 16, diante de toda guarnição formada e numerosos civis de Meknés. As honras militares foram-lhe prestadas pelo 4º Regimento Estrangeiro, pela sua banda, e por destacamento de todas as armas”.

(Benedicto Pires de Almeida)



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